Editorial – Ed. 28

Terminamos 2020 com a sensação de que foi tudo demais: o furor da pandemia em nível global, com o estarrecedor número de óbitos, sem falar na perda de empregos, o fechamento de atividades comerciais e industriais, o empobrecimento grave da população, principalmente dos mais pobres. Mas não foi tudo. Vivemos no Brasil a intensificação do terror destes acontecimentos a partir da gestão de um presidente que tem desprezado a gravidade da doença, ridicularizado aqueles que tem lutado contra ela, omitido informações, negado a ajuda federal aos estados, e promovido um desmonte obscurantista e sistemático à ciência, dentre outras atrocidades. Assim, ao longo deste ano, como se não bastasse a precária recomposição do cotidiano assolado pela crise sanitária, ainda tivemos que nos haver com a “guerra híbrida” do presidente contra a população brasileira. Ao final de 2020, somam-se, no entanto, ao rescaldo, tanto a exaustão e a falta de perspectivas, como também as ações criativas de sobrevivência, solidariedade e mobilização frente à adversidade.

A pandemia trouxe para as crianças e para os jovens a situação completamente inusitada de não poder ir para a escola. O quê chama a atenção é que, relativamente ao que aconteceu com os adultos no tocante a suas perdas, a enorme vulnerabilidade das crianças e jovens tem sido pouco visibilizada. Abruptamente, às crianças foram subtraídos seu “projeto de vida”, a mais basilar forma material e simbólica da sua existência, lançando jovens e crianças a ter que lidar com o vazio deixado por não ter o quê fazer, para onde ir, com quem se relacionar e o quê esperar. Mesmo para as crianças e jovens – afortunados, e em menor número – que puderam seguir aulas e cursos online, providos pelos estabelecimentos privados, a grande maioria seguiu sem poder acessar ao muito que a grande maioria de professoras e professoras se esforçou para continuar oferecendo com os parcos recursos das escolas públicas. Assim, às grandes desigualdades sociais e econômicas que a pandemia aprofundou em países como o Brasil, se junta a desigualdade geracional. Com pouca intensidade repercutiram os efeitos traumáticos da pandemia sobre as crianças e os jovens, afetados profundamente em seus elos com os outros e no processo de construção de si; ainda que, contraditoriamente, em âmbitos de discussão pública das mídias alternativas, tenha havido mobilizações importantes e sistemáticas dos profissionais e pesquisadores/as da área com o objetivo de gerar impacto sobre esta questão.

Nesta edição da DESIDADES, na seção Temas em Destaque, trazemos algumas reverberações desta situação pandêmica em três artigos, o de Nádia Lima, o de Celeste Hernandez e o das pesquisadoras Ana Hecht, Noelia Enriz e Mariana Palacios. Nestes, se discutem as muitas facetas de como a pandemia, na Argentina e no Brasil, destituiu ainda mais cruelmente aqueles que já tinham pouco, os povos indígenas, por exemplo; ou, como o futuro das crianças parece abalado estruturalmente: elas voltarão à escola depois da pandemia, ou se desligarão dela de vez? Por outro lado, para muitas crianças, a situação problemática é diferente: a de saber o quê fazer com tanta tela a que as crianças estão expostas. Será essa uma transmissão que se torna mais fácil, ou mais difícil?

As questões da aprendizagem, da transmissão e da inter-geracionalidade são trazidas, em outros seis artigos, sob enfoques diferentes, retratando como as duas gerações – de crianças e adultos – se enlaçam no processo de reprodução social e, também, de reinvenção de si e da cultura em contextos diferentes. Inês Barbosa, enfocando o contexto escolar, discute as noções de desaprendizagem e desobediência questionando a missão, tida como convencional, da instituição escolar que é a de ensinar, a qual pressupõe um sujeito – o estudante – aquiescente e submisso. Distante do contexto escolar, no sertão do Brasil, Marcela Centelhas volta sua lente investigativa para as práticas de cuidado e de higiene que enlaçam, simultaneamente, as duas gerações – mães e crianças. Sutilmente regulados pelos poderes do aparelho estatal nas suas políticas de acesso à agua, os corpos, afetos e atitudes de crianças e suas mães se conectam a uma dinâmica social atravessada pelas políticas públicas, e igualmente condicionada pelo território, a raça e a classe das mães e das crianças. Ainda no âmbito da ruralidade, com o foco na educação não formal de crianças que vivem em uma zona próxima a Buenos Aires, temos o artigo de Celeste de Marco que discute o valor de atividades educacionais que ensejam a participação ativa das crianças na construção do fazer coletivo. Na mesma veia de escutar a criança, e de através dela acessar as práticas do grupo social, está o artigo de Neyra Solis cujo objetivo é estudar o patrimônio pelo olhar das crianças. Ela investiga como as crianças ciganas Ludar no México atualizam, permanentemente, o patrimônio cultural deste grupo social através da prática do espetáculo – suas apresentações na rua. Aí, também, se enlaçam as duas gerações em um processo vivo de transmissão e reinvenção das práticas culturais.

Os pactos geracionais – entre crianças e adultos – são postos em questão no artigo de Erica Atem e João Paulo Barros que buscam acompanhar os processos em que as duas gerações – nos encontros de pesquisa analisados – podem reinventar suas posições no discurso, e abrir-se ao imprevisível do encontro. Enfim, o artigo de Giselle Azevedo, Regina Tânguari e Alain Flandes toma a cidade como território educativo e a voz e a participação das crianças neste espaço como elemento crítico fundamental para o desenho de uma cidade mais justa para todos e todas.

Outros quatro artigos se debruçam sobre temáticas da juventude. Ambos os artigos de Alfredo Nateras e Rogelio Marcial tratam de investigações sobre a situação de violência institucional no México e seus efeitos sobre os grupamentos juvenis, suas identidades e seus valores. Mesmo frente a este cenário tão adverso, Nateras aponta algumas linhas de fuga tendo em vista uma cultura da paz onde se possa expressar a potência de uma cidadania juvenil. O artigo de Maria Victoria Correio fecha esta tríade problematizando a produção teórica sobre juventudes na Argentina, ao interrogar-se sobre as possibilidades de fazer valer enfoques que ponham em relevo as relações de gênero, assim como questionem o adultocentrismo. E finalmente, o artigo de Samira Bastos traz uma discussão sobre as medidas socioeducativas com jovens negros em duas capitais do Brasil mostrando como o punitivismo tem alimentado a criminalização da pobreza e a desproteção social das famílias.

Na seção Espaço Aberto, temos o prazer de trazer a entrevista de Bruno Picoli com Maria Celi Chaves Vasconcellos sobre Educação Domiciliar no cenário brasileiro, o que tem sido chamado frequentemente de homeschooling, quando se usa o anglicismo. A entrevista é uma contribuição ao debate que ora se apresenta como extremamente relevante, no momento em que as crianças e jovens seguem em casa recebendo o aporte educacional da escola.

O livro “O que você vai ser antes de crescer? Youtubers, infância e celebridade”, de Renata Tomaz é apresentado na resenha feita por Juliana Doretto. Ainda na seção de Informações Bibliográficas, temos o levantamento de publicações na área de infância e juventude, lançadas neste último trimestre, no âmbito das ciências humanas e sociais. Continuamos crendo que poder ter acesso ao que se publica em livros – em toda a América Latina – sobre infâncias e juventudes é da maior relevância para o trabalho dos pesquisadores/as e profissionais nesta área.

Boa leitura!

Lucia Rabello de Castro
Editora Chefe

Lista de pareceristas 2020

Alfredo Nateras Domínguez – México, Universidad Autónoma Metropolitana
Iztapalapa

Ana Cristina Serafim da Silva – Brasil, Universidade Federal do Tocantins

Dorian Mônica Arpini – Brasil, Universidade Federal de Santa Maria

Flavia Cristina Silveira Lemos – Brasil, Universidade Federal do Pará

Ilana Lemos de Paiva – Brasil, Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Leandro De Lajonquière- Brasil, Universidade de São Paulo

Luciana Gageiro Coutinho – Brasil, Universidade Federal Fluminense

Mara Lago – Brasil, Secretaria de Educação da Prefeitura de Porto Alegre

Marcos Cezar de Freitas – Brasil, Universidade Federal de São Paulo

Maria Luiza Campos da Silva Valente- Brasil, Pontifícia Universidade Católica –
Rio

María Raquel Patricia Macri – Argentina, Universidad de Buenos Aires

Neyra Patricia Alvarado Solís – México, El Colegio de San Luis

Suzana Santos Libardi – Brasil, Universidade Federal de Alagoas