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Mobilidade e autonomia na vivência de crianças urbanas: uma etnografia do parque público infantil

Milene Morais Ferreira
Universidade Federal da Paraíba, Programa de Pós-Graduação em Antropologia, João Pessoa, Paraíba, Brasil.
ORCID iD: 0000-0001-5664-3636

Patrícia Maria Uchôa Simões
Fundação Joaquim Nabuco, Diretoria de Pesquisas Sociais, Recife, Pernambuco, Brasil.
ORCID iD: 0000-0003-1292-4182

Introdução

O campo interdisciplinar de estudos das infâncias vem desenvolvendo muitas investigações que têm como foco as crianças nos espaços urbanos, suas possibilidades de mobilidade e autonomia, suas interações com os seus pares e com os adultos e a apropriação que fazem dos equipamentos culturais nesses contextos (AITKEN, 2014; ARAÚJO, 2016; CHRISTENSEN, 2010; CHRISTENSEN et al., 2014; LAZZAROTTO; NASCIMENTO, 2016; LOPES; COSTA, 2017; MÜLLER, 2012; MÜLLER; NUNES, 2014; SARMENTO, 2018).

Segundo Sarmento (2018), esse recente interesse na investigação sociológica das crianças é o resultado de três fatores conjugados: o desenvolvimento de uma agenda de pesquisas sobre a condição social da infância e sobre a criança enquanto ator social; a importância do estudo da cidade contemporânea, especialmente com os aportes da Sociologia Urbana, e a compreensão da infância na cidade a partir dos dispositivos de controle, interdição e fragmentação do espaço urbano.

As crianças, tanto quanto os adultos, são agentes na construção de novas possibilidades de se ver e viver na cidade e, na medida em que atuam, transitam e utilizam os espaços urbanos, produzem sentidos e ressignificam aquilo que foi instituído, a partir de suas perspectivas e vivências, nos seus contextos culturais (AITKEN, 2014; ARAÚJO, 2016; CHRISTENSEN et al., 2014; CHRISTENSEN, 2010; MÜLLER, 2012; MÜLLER; NUNES, 2014; SARMENTO, 2018).

O presente estudo parte das perspectivas dos estudos sociais das infâncias para pensar a criança como agente social e produtora de culturas, bem como as infâncias enquanto categoria de análise da sociedade (ABRAMOWICZ, 2018; BELLONI, 2007; COHN, 2005; CORSARO, 2011; MAYALL, 2013; MONTANDON, 2001; PROUT, 2010; QVORTRUP, 2010; SARMENTO, 2004; 2005; SIROTA, 2001). Essa proposta teórico-metodológica oferece poder explicativo quando se focaliza as crianças na cidade, suas possibilidades de deslocamento e de escolha quanto aos espaços e tempos e às formas de utilização dos espaços públicos.

A partir do estudo das crianças na cidade, temos elementos explicativos da sociedade, pois conhecer práticas cotidianas de uma cidade e de seus membros vai além da apropriação geográfica dos sujeitos, dizendo respeito às relações sociais que são estabelecidas por diferentes grupos geracionais no interior desses espaços.

O presente texto pretende refletir sobre as relações entre crianças e cidades, enfatizando o espaço do parque no contexto das infâncias. O objetivo foi analisar a apropriação dos espaços de um parque público infantil pelas crianças pequenas, considerando as formas de utilização ou não dos equipamentos, e investigar a mobilidade das crianças e suas relações com os adultos que as acompanham, analisando, assim, as relações intergeracionais nos espaços públicos.

O novo campo interdisciplinar de estudos das infâncias e a pesquisa sobre a criança na cidade

Na década de 1980, há uma modificação da representação da infância nas ciências sociais, passando a uma compreensão da criança, mesmo inserida no universo adulto, como um ser que cria e modifica o universo sociocultural em que está imerso (ABRAMOWICZ, 2018; BELLONI, 2009; COHN, 2005; CORSARO, 2011; MAYALL, 2013; MONTANDON, 2001; PROUT, 2010; QVORTRUP, 2010; SARMENTO, 2004; 2005; SIROTA, 2001). Esse olhar um tanto recente sobre a infância afirma que essa não é apenas uma etapa de passagem para a vida adulta e ganhou força com o estudo iconográfico do historiador Philippe Ariès (1981). Segundo esse autor, a infância é uma construção social. Essa afirmação representa um rompimento com as ideias essencialistas e biologizantes sobre a criança que eram hegemônicas nas ciências, até então, e propõe uma nova categoria de análise para a pesquisa social: a infância.

O campo interdisciplinar dos estudos das infâncias emerge, pois, considerando essa mudança teórica, epistemológica e metodológica de pesquisar as crianças e as infâncias:

[…] as crianças são sujeitos sociais e históricos, marcados por contradições das sociedades em que vivem. A criança não é filhote do homem, ser em maturação biológica; ela não se resume a ser alguém que não é, mas que se tornará (adulto, no dia em deixar de ser criança). Defendo uma concepção de criança que reconhece o que é específico da infância – seu poder de imaginação, fantasia, criação – e entende as crianças como cidadãs, pessoas que produzem cultura e são nela produzidas, que possuem um olhar crítico que vira pelo avesso a ordem das coisas, subvertendo essa ordem. Esse modo de ver as crianças pode ensinar não só a entendê-las, mas também a ver o mundo a partir do ponto de vista da infância. Pode nos ajudar a aprender com elas (KRAMER, 2000, p. 5).

Na mesma direção, Cohn (2005) considera que as crianças são capazes de se apropriar desse universo no qual estão inseridas, atribuindo-lhe novos sentidos, uma vez que, se comparada ao adulto, “a criança não sabe menos, sabe outra coisa” (COHN, 2005, p. 33). Sendo assim, não há um processo de socialização que tenha uma direção única do adulto para a criança, mas como afirma Belloni (2007, p. 61), “do ponto de vista da criança, a socialização constitui um processo de apropriação e de construção, por meio da participação ativa do indivíduo jovem que intervém, age e interage com todos os elementos de seu universo”.

Desta maneira, os estudos sociais das infâncias focalizam as crianças enquanto agentes de uma infância que “é construída diversamente e localmente mediante interação contínua” (PROUT, 2010, p. 735), tanto com o ambiente e as instituições em que vivem quanto com os seus pares e os outros grupos geracionais com os quais convivem.

Na sociologia brasileira, Fernandes (2004) elaborou uma análise acerca de grupos de crianças que se reuniam nas ruas, afastados da família e da escola, brincavam e formavam grupos, “as trocinhas do Bom Retiro”, cuja característica ressaltada pelo autor era a elaboração de regras particulares de convívio e para as brincadeiras que se configuravam como criações das próprias crianças. Essas regras regulavam a formação dos grupos, os rituais de ingresso nas brincadeiras e nos grupos, as disputas de espaço e as relações de gênero, raça e sexo.

Porém, essa liberdade de acesso às ruas, tratada por Florestan Fernandes, não é uma realidade para todas as crianças na contemporaneidade. As formas de organização social nos espaços das cidades, especialmente nas grandes cidades, vêm sofrendo modificações e impondo às crianças limitações na sua mobilidade e autonomia para transitar e utilizar os espaços públicos (AITKEN, 2014; ARAÚJO, 2016; CHRISTENSEN, 2010; CHRISTENSEN et al., 2014; MÜLLER, 2012; MÜLLER; NUNES, 2014; SARMENTO, 2018).

Ao mesmo tempo em que a modernidade estabeleceu a escola como condição de acesso à cidadania, realizou um movimento de separação das crianças dos adultos e dos espaços públicos da cidade. Dessa maneira, ao passo que, na sociedade contemporânea, os adultos devem assumir um comportamento produtivo, é esperado das crianças que estejam apartadas desse mundo e vivenciem suas experiências de aprendizagem em casa ou na escola (ARIÈS, 1981).

A cidade contemporânea, pois, é caracterizada pela fragmentação e especialização dos espaços urbanos, os quais demarcam a exclusividade do ambiente conforme a faixa de idade do público. Crianças, adolescentes e adultos ocupam áreas que se destinam à sua identidade geracional, como creches, escolas e locais de trabalho (FARIAS; MÜLLER, 2017; MÜLLER; NUNES, 2014; SARMENTO, 2018).

Sarmento (2018) destaca a importância da cidadania ativa das crianças e propõe a discussão sobre os direitos sociais das crianças, entre esses, o direito à cidade, à brincadeira, ao convívio com outras crianças e com indivíduos de outras gerações. Nesse sentido, ocupando os espaços públicos, como o parque, a criança também ocupa um lugar na cidade e assume uma das dimensões de sua cidadania: o direito à cidade.

Dois conceitos são particularmente importantes no debate sobre as formas de apropriação do parque pelas crianças: os conceitos de mobilidade e de autonomia. A noção de mobilidade empregada nesta pesquisa condiz com a definida pela World Health Organization (WHO) e utilizada por Christensen et al. (2014, p. 700):

A noção de “mobilidade cotidiana” se refere a todo o espectro de movimentação corporal no qual as crianças se engajam durante suas atividades diárias (WHO, 1998), desde as atividades estacionárias realizadas enquanto estão paradas às atividades físicas mais vigorosas realizadas em um determinado local ou entre locais.

Segundo Farias e Müller (2017), a mobilidade urbana tem um importante papel na percepção que as crianças têm sobre a cidade. Os deslocamentos e movimentações na cidade trazem conhecimentos e aprendizagens sobre os espaços urbanos e possibilitam o estabelecimento de interações sociais e a construção de significados que vão constituir as identidades das crianças em suas relações com os territórios das cidades.

Por autonomia, foi utilizada, neste estudo, a noção desenvolvida por Montandon e Longchamp (2007, p. 108):

[…] a capacidade e o poder da pessoa de governar-se, de tomar as decisões que lhe concernem. Isso não quer dizer que esta capacidade seja totalmente imanente, desligada da realidade social, como se uma pessoa pudesse inverter ex nihilo seus pensamentos, como se suas emoções estivessem totalmente desligadas de outrem ou suas ações não implicassem nenhuma responsabilidade. Na verdade, uma pessoa é capaz de ser autônoma quando ela tem consciência dessa realidade. Certamente, ser capaz não quer dizer poder. Nesse sentido, seres submetidos ao poder de outrem podem ter a capacidade de ser autônomos, mas não a possibilidade, e vice-versa.

Os conceitos de mobilidade e autonomia orientam a análise dos registros feitos no presente estudo por permitirem uma compreensão da vivência das crianças no parque, que se configurou como uma experiência social que articulou espaço, tempo e relações intergeracionais constituintes da percepção da criança sobre a cidade.

Procedimentos de pesquisa

Foram realizadas sessões de observação não participante durante um mês, com a frequência de seis dias por semana, em horários diferentes: tarde e manhã. Esse formato de registro foi definido no intuito de registrar como a criança utiliza os equipamentos disponibilizados nos espaços do parque e como ocorre a interação infantil neste ambiente, tanto com seus pares quanto com os adultos. A escolha desse procedimento metodológico fundamenta-se no objetivo do estudo de procurar compreender as formas de interações inter e intrageracionais entre crianças e os adultos responsáveis que as acompanhavam, procurando causar o mínimo de interferência nas formas de controle pelos adultos e nas iniciativas de autonomia e de resistência das crianças (LAKATOS; MARCONI, 2002; RICHARDSON, 1999). As observações foram feitas em horários diferentes para alcançar uma diversidade maior no tocante às formas de uso dos espaços do parque pelas crianças e os grupos geracionais que as acompanhavam.

O roteiro de campo foi elaborado considerando os objetivos específicos propostos para esta pesquisa e compreendia a observação em três principais dimensões: relações da criança com o adulto que a acompanhava; relações entre crianças e utilização dos espaços e equipamentos pela criança. Os registros foram organizados nas dimensões estudadas e analisados a partir de um eixo definido que incluía a discussão sobre a mobilidade e a autonomia da criança, na sua apropriação dos espaços do parque.

Antes de apresentar os resultados deste estudo, faz-se necessário situar nosso locus de pesquisa, o Parque da Jaqueira. O bairro da Jaqueira está localizado na zona norte do Recife, Brasil, numa área predominantemente residencial. A escolha do parque como local de pesquisa se deve ao fato de ser uma das maiores áreas de lazer da cidade, o que atrai uma multiplicidade de públicos de diversas classes sociais e geracionais, residentes nas proximidades e em outros bairros que frequentam o espaço.

O Parque da Jaqueira possui quatro ambientes intitulados parques infantis, cada um desses espaços é dirigido a uma faixa etária que é indicada pela altura máxima que a criança deve ter para utilizar os brinquedos e equipamentos que são padronizados e confeccionados com madeira. Em cada parque, há um mapa com a localização dos outros parques e uma trena para verificação da altura da criança com o seguinte aviso: “Todas as crianças devem contar com a supervisão de um adulto responsável e respeitar a indicação de idade e altura de cada Parque Infantil”.

O Parque Infantil 4, onde foi realizado o estudo, dirige-se a crianças de 4 a 8 anos de idade ou cuja altura não ultrapasse 1,35 metros. Nesse parque, há uma casinha da árvore, pedras, gangorras, balanços diversos, equipamentos de ginástica ao ar livre e uma tirolesa. Possivelmente, por ser o único espaço que tem esse último equipamento, o Parque Infantil 4 é o que apresenta maior procura de crianças de todas as faixas etárias.

Milene Morais Ferreira milenemorais2008@gmail.com

Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Educação, Culturas e Identidades da Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE/FUNDAJ, Recife, Brasil. Integrante do Grupo de Pesquisa Infância e Educação na Contemporaneidade (GPIEDUC) e do Grupo de Pesquisa Criança, Sociedade e Cultura (CRIAS), Brasil. Doutoranda em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), João Pessoa, Brasil.

Patrícia Maria Uchôa Simões pusimoes@gmail.com

Doutora em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Brasil. Pós-Doutoramento em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Brasil. Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), Brasil. Docente e atual coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação, Culturas e Identidades da Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE/FUNDAJ, Recife, Brasil.