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A escola precisa conversar com a cidade

Entrevista de Paula Uglione com Giselle Azevedo Arteiro

 

Paula Uglione Como você chegou aos estudos relacionados às crianças, aos jovens e aos ambientes educacionais?

 

Giselle Arteiro Na verdade, iniciei este tema no mestrado, aqui no PROARQ (Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro). Antigamente, no mestrado, você não entrava com um tema específico. Você fazia a prova e começava a cursar a pós-graduação e só depois fazia o projeto. Eu não possuía nenhuma bagagem relacionada à temática da arquitetura escolar, educação. Da mesma forma, nunca tinha feito projetos de escolas. Assim, se você me perguntar se essa influência foi por uma atividade profissional, eu diria que não, porque, até então, eu não tinha nenhuma experiência nessa área de infância e ambientes educacionais.

 

Mas acho que sou impregnada por esse tema. Sou de uma família de professores. Minha mãe era professora primária. Meu irmão é professor e agora está se aposentando. Então, de certa maneira esse tema sempre esteve presente, me influenciando. Estudei em escola pública, quando criança. Tenho a marca dessa imagem de escola: aquela escola muito bacana, muito grande, muito antiga, com ambientes amplos e grande pé-direito. Ela era adaptada. Mas a imagem da precariedade também marcou. Era uma escola muito boa em termos de conforto ambiental, muito arborizada, com um terreno enorme, no qual a gente brincava bastante. Mas, ao mesmo tempo, era uma escola com um banheiro horroroso, depredado, todo quebrado, sem manutenção. Essas imagens fazem parte da minha memória afetiva. Fui afetada pela vivência da minha família como educadores e por esses espaços na escola pública.

 

No mestrado, decidi pensar a escola. Pensar o ambiente escolar. Pensar como a criança se relaciona com esse espaço. No PROARQ só existiam duas áreas de concentração. Fui para a área do conforto ambiental. Na minha dissertação de mestrado, tracei um panorama do ambiente escolar e da arquitetura. Peguei alguns exemplos tipológicos mais importantes da arquitetura escolar do Rio de Janeiro desde o império, as escolas do Imperador, passei pelo ecletismo, pelo neocolonial até chegar às escolas padronizadas das últimas décadas. Fiz uma varredura destes exemplos e avaliei o conforto térmico neste panorama. Naquela época, eu ainda não trabalhava com a Avaliação Pós-Ocupação (APO)[1]; mas, intuitivamente, acabei fazendo uma APO. Neste processo, visitei minha antiga escola, que virou Centro Integrado de Educação Pública (CIEP). Enfim, no mestrado, a pesquisa girou em torno desta perspectiva do conforto.

 

Nos tempos de doutorado, esta pós também não existia no PROARQ. Então, fui para o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE), que é uma unidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fui para Engenharia de Produção. Mesmo com essas mudanças, eu queria continuar trabalhando com a escola. O Leopoldo Bastos, que foi meu orientador, abraçou o tema. Desta forma, continuei trabalhando com escola, mas passei a pensar a escola como um artefato sociocultural e sua relação com a proposta pedagógica. Meu foco no doutorado foi a materialização da proposta pedagógica na arquitetura. Como o espaço dava conta de representar essa proposta pedagógica? Primeiramente, fiquei muito frustrada, porque percebi que as escolas não tinham clareza na proposta pedagógica. Tudo era uma grande mistura. Quando se pedia o projeto político-pedagógico da escola, dava para perceber que eles misturavam muitas tendências, várias linhas pedagógicas juntas. Enfim, como produto final, cheguei num modelo conceitual de abordagem interacionista relacionando o ambiente com o desenvolvimento da criança.

 

No doutorado, conheci a professora Vera Vasconcellos, uma psicóloga que trabalha com educação infantil, e a gente começou a ver que tinha muita coisa em comum, muitas afinidades temáticas. Assim, iniciamos o Grupo Ambiente e Educação (GAE). Isso aconteceu mais ou menos em 2003. Defendi a tese em 2002, e o GAE foi fundado em 2003. Qual era a ideia do Grupo Ambiente e Educação? A ideia era que fosse um grupo interdisciplinar, porque ele agregava pesquisadores de áreas distintas. Éramos eu e o prof. Paulo Afonso Rheingantz, arquitetos; Leopoldo Bastos, da sustentabilidade; Vera Vasconcellos, psicóloga, e Lígia Aquino, pedagoga. Essas duas, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), faziam parte de um grupo muito forte que discutia a educação infantil. Tempos depois, em 2004,  fomos chamados para fazer a consultoria daquele documento de referência do MEC para as escolas públicas de todo o brasil.

 

Paula Uglione O que caracteriza esse campo que aproxima a arquitetura da educação?

 

Giselle Arteiro O mais importante sobre esse assunto é a transdisciplinaridade. É muito importante se pensar que são diversas áreas que precisam conversar, tendo um objetivo em comum. Elas não são fechadas em si mesmas. São áreas que precisam transbordar o limite de cada campo disciplinar, para que possam ter uma interlocução. Nós não podemos pensar na escola sem pensar na educação. O que acontece lá dentro? Muitas vezes o que a gente percebe, quando falamos de arquitetura escolar, é que os arquitetos e planejadores não sabem o que acontece dentro do ambiente escolar. Eles têm um modelo de escola, mas é aquele modelo impregnado em nosso imaginário, um modelo de 100 anos atrás. Esse modelo obsoleto é composto por sala de aula, quadro negro, carteiras em fila. Mas o que acontece ali dentro? Qual é a dinâmica em jogo? 

 

Para mim, o que caracteriza a importância dessa área e desse tema é justamente a possibilidade de uma interlocução dos saberes. Uma conversa entre esses campos disciplinares, para pensar a complexidade entre arquitetura e educação. A grande questão que eu percebo hoje é que a escola não dá mais conta de lidar com suas demandas. Esse modelo tradicional de escola não está dando conta desses jovens e crianças de hoje. O perfil dos jovens e crianças mudou muito. Então, a escola precisa se ressignificar. A escola precisa ser reinventada! 

 

Como fazer isso? Que conversa é essa entre arquitetura e educação? Como isso de fato acontece? O que a gente percebe é que não acontece! Os campos disciplinares continuam muito distantes e estanques nessa problemática. Na prática, os arquitetos continuam atendendo a demanda – principalmente na escola pública – de apenas produzir escolas para atender a um número crescente de crianças. Paralelamente, os educadores não percebem a dimensão da arquitetura como tendo um valor pedagógico. Essa é uma questão importante. Por isso, acredito que uma interlocução entre esses campos do saber com certeza vai enriquecer as duas áreas, tanto a arquitetura quanto a docência e a pedagogia. Essa conversa tem que existir para que a gente possa pensar o espaço, o ambiente, para que a escola possa realmente ser apropriada pelos usuários, pelas crianças. Que escola é essa? Qual é a cara da escola que a gente quer no século 21?

 

 

Paula Uglione Como esse campo da arquitetura-educação tem pensado as inquietações atuais sobre educação das crianças e sobre o funcionamento das escolas?

 

Giselle Arteiro Tem pensado muito pouco. Nós sabemos que tem muita pesquisa acadêmica na área. Muita gente bacana fazendo pesquisa. Esse tema está realmente sendo refletido por muitos grupos como o nosso: um grupo na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), o grupo da Dóris Kowaltowski, em Campinas, o grupo da Gleice Elali, no Rio Grande do Norte. Tem muita gente pensando o campo da arquitetura-educação sobre a educação e as crianças. Mas o que acontece na prática é que os modelos continuam padronizados. As escolas são “escolas-padrão”. Sai gestão, entra a gestão, sai governo e entra governo – e continuo falando de escola pública. Essa escola é padronizada e normalizada. É só ver o último exemplo que temos no nosso cotidiano: as “Escolas do Amanhã”, na gestão do prefeito Eduardo Paes. Qual é a conversa que essa escola tem com aquele lugar em que ela está inserida? Qual a conversa com aquele contexto? Não tem! A escola continua fechada em si mesma. Na maioria esmagadora das vezes, a escola funciona muito como bandeira eleitoreira e os principais atores, que são as crianças e adolescentes, não são contemplados. 

 

O que os jovens e crianças querem? Qual é a escola que eles querem? Em todas as visitas que a gente faz, percebemos que a escola não é deles. A escola é controlada. Os banheiros são trancados. O pátio não é usado em sua plenitude e é muito cerceado. Então, vemos que a escola – ainda hoje – é como Foucault descreve: é vigiar e punir. A escola é feita e pensada com aquele controle e disciplina típicos dos séculos passados. Isso tem muito a ver com a gestão. É claro que o espaço contribui, mas tem muito a ver com a gestão. As cabeças precisam ser ampliadas. Esse olhar sobre a vinculação entre arquitetura e educação precisa ser ampliado.

 

Na pergunta anterior, você falou sobre a relação entre arquitetura e educação. Uma das funções dessa união é ampliar esse olhar. A escola não está dando mais conta das demandas dos estudantes. O jovem e as crianças de hoje estão mexendo o tempo todo na internet, os dispositivos tecnológicos estão aí, acontecendo ininterruptamente. Então, ficar com uma criança o tempo todo dentro da sala de aula está anacrônico. Eu, sinceramente, não acredito mais nisso!

 

Nós percebemos que a escola continua conteudista. Para meu filho adolescente, por exemplo, a escola só fala em ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). É um massacre: conteúdo, conteúdo, conteúdo! Dentro de sala, o tempo todo, o garoto não sai para nada. Podemos perceber que as escolas continuam fechadas, se cercando, muradas, não conversam com nada do que acontece em volta. Então, é um modelo padronizado, que serve para cá, que serve para lá: ao mesmo tempo que serve para o subúrbio, serve para zona oeste. Mas de quem é essa escola? Que contexto é esse presente nos arredores da escola? Tudo se perde, porque a construção das escolas se transforma numa enorme propaganda. Ao invés de se pensar a função, a relação e a complexidade entre escola-ambiente-cidade, essa temática torna-se uma grande bandeira eleitoreira. O foco que se dá na construção das escolas refere-se a uma incessante produção em massa. Eles dizem: nessa gestão se fizeram muitas escolas, as “Escolas do Amanhã”. Então vem o prefeito fazer propaganda numa clara exaltação de caráter assistencialista. Soma-se a isso um esvaziamento da temática, dizendo que a criança na escola está bem alimentada, que passa o dia inteiro ali dentro.

 

Paula Uglione Também tem a questão da educação integral?

 

Giselle Arteiro Sim! Eu acho a ideia de educação integral sensacional. O grande problema que eu vejo é que, se você for olhar os documentos do “Mais Educação”, a coisa se complica. O que está no papel é muito bacana: a formação integral do ser humano. O que interessa, de fato, não é o contraturno escolar, em que a criança fica o dia inteiro na escola. O que supostamente interessa é a formação integral, pensar no ser humano holístico, que tem a vivência de contexto, com uma bagagem sócio-histórica. Mas na prática não acontece isso! Os jovens e crianças que estão na escola vivem uma realidade fragmentada, porque não têm vivência da cidade, eles quase não saem. O formato é sempre o mesmo, a escola é a mesma, é igual.

 

[1] APO é uma metodologia multidisciplinar de avaliação da qualidade ambiental dos espaços, após determinado tempo de uso, focalizando tanto o olhar do pesquisador quanto a opinião dos usuários, suas necessidades e expectativas relacionadas ao espaço vivenciado por eles.

Giselle Azevedo Arteiro gisellearteiro@globo.com
Doutora em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil. Professora Associada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e do PROARQ da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenadora do Grupo Ambiente-Educação (GAE), registrado no Diretório Nacional dos Grupos de Pesquisa CNPq.

Paula Uglione desvioambiental@gmail.com
Psicóloga. Doutora em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia dessa universidade. Pesquisadora nas áreas de Psicologia e Estudos Urbanos.