Infâncias afetadas pela violência estatal: dispositivos territoriais de escuta psicanalítica e elaboração do trauma colonial

DOI® https://doi.org/10.54948/desidades.v1i44.72941
  • Alan Coutinho
    Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.
  • Luana Martins
    Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.
  • Mariana Mollica
    Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

Resumo

O artigo analisa os efeitos psíquicos, sociais e políticos da violência armada de Estado sobre crianças, adolescentes e suas famílias, a partir da experiência da Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado (RAAVE), no Rio de Janeiro. Ancorado na psicanálise e em uma perspectiva clínico-política, discute como a necropolítica racializada incide na produção de lutos interrompidos, na ameaça permanente à infância e na precarização dos laços sociais. Destaca-se a criação de oficinas e cirandas com crianças e jovens — irmãos e familiares de vítimas — como dispositivos territoriais de escuta e elaboração coletiva do trauma. Esses espaços possibilitam a circulação da palavra, a reconstrução de narrativas e a sustentação do estatuto de sujeito diante de processos de desumanização. Ao articular memória, cuidado e ação política, o trabalho evidencia que a escuta das infâncias afetadas constitui uma intervenção clínica e um gesto ético de resistência frente ao extermínio de futuros.

  • violência armada de Estado
  • trauma colonial
  • clínica territorial
  • infâncias racializadas
  • necropolítica

Resumen

El artículo analiza los efectos psíquicos, sociales y políticos de la violencia armada del Estado sobre niños, adolescentes y sus familias, a partir de la experiencia de la Red de Atención a Personas Afectadas por la Violencia de Estado (RAAVE), en Río de Janeiro. Anclado en el psicoanálisis y en una perspectiva clínico-política, discute cómo la necropolítica racializada incide en la producción de duelos interrumpidos, en la amenaza permanente sobre la infancia y en la precarización de los vínculos sociales. Se destaca la creación de talleres y espacios colectivos de juego con niños y jóvenes —hermanos y familiares de víctimas— como dispositivos territoriales de escucha y elaboración colectiva del trauma. Estos espacios posibilitan la circulación de la palabra, la reconstrucción de narrativas y la afirmación del estatuto de sujeto frente a procesos de deshumanización. Al articular memoria, cuidado y acción política, el trabajo evidencia que la escucha de las infancias afectadas constituye una intervención clínica y un gesto ético de resistencia frente al exterminio de futuros.

  • violencia armada estatal
  • trauma colonial
  • clínica territorial
  • infancias racializadas
  • necropolítica

Abstract

This article examines the psychic, social, and political effects of state armed violence on children, adolescents, and their families, based on the experience of the Network for Assistance to People Affected by State Violence (RAAVE) in Rio de Janeiro. Grounded in psychoanalysis and a clinical-political perspective, it discusses how racialized necropolitics shapes interrupted mourning, the permanent threat to childhood, and the erosion of social bonds. The study highlights workshops and collective play spaces developed with children and youth — siblings and relatives of victims — as territorial listening devices for the collective elaboration of trauma. These spaces enable the circulation of speech, the reconstruction of narratives, and the affirmation of subjectivity in the face of dehumanization. By articulating memory, care, and political action, the article shows that listening to affected childhoods is both a clinical intervention and an ethical act of resistance against the destruction of futures.

  • state armed violence
  • colonial trauma
  • territorial clinical practice
  • racialized childhoods
  • necropolitics

Data de recebimento: 28/02/2026

Data de aprovação: 23/03/2026

Baixar PDF
do artigo completo
  • Alan Coutinho

    Mestre e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Brasil. Membro da Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado, Rio de Janeiro, Brasil.

  • Luana Martins

    Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Brasil. Membra da Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado, Rio de Janeiro, Brasil.

  • Mariana Mollica

    Professora Adjunta do Departamento de Psicologia Geral e Experimental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Brasil. Pós-doutora Sênior pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.