Editorial

DOI® https://doi.org/10.54948/desidades.v1i45.76910

A infância mapuche de Neuquén em tempos marcados pelas novas direitas

Neste editorial, abordaremos a complexa conjuntura pela qual passa a infância mapuche na província de Neuquén (Argentina), a partir de uma perspectiva antropológica contextualizada. Com base em 25 anos de pesquisa etnográfica e acompanhamento de famílias e comunidades mapuches nas regiões central e sul dessa província, examinamos as transformações estruturais decorrentes da guinada política para a direita iniciada no final de 2023. A análise concentra-se na precarização das condições de vida das infâncias, no impacto de desastres socioambientais, nos cortes nas políticas de previdência social e educação, no surgimento de discursos governamentais hostis e na subsequente reprivatização dos cuidados. Diante desse cenário, documentam-se as práticas comunitárias de resistência e transmissão de conhecimentos centradas no mapuche kimvn, o conhecimento mapuche.

Contextualização política e precarização da vida

A posse do novo governo em nível nacional no final de 2023 inaugurou uma reconfiguração macroeconômica orientada prioritariamente para o controle da inflação e a manutenção de um suposto equilíbrio fiscal. Esse programa foi implementado por meio de severos cortes nos gastos públicos, afetando áreas críticas como saúde, educação, transporte, previdência social e obras públicas. Tais medidas não apenas resultaram em demissões e no desmantelamento de órgãos ministeriais e agências estatais nacionais nas esferas provinciais, mas também agravaram as condições de precariedade do tecido social, com um impacto acentuado sobre as infâncias. Assim, em julho de 2025, o índice de pobreza entre a população infantil e adolescente atingiu 53%, evidenciando que a prevalência desse flagelo é substancialmente maior nesse segmento em comparação com o restante da população.

Essa crise econômica, provocada pelo programa de governo implementado, gerou um endividamento generalizado nas economias domésticas. Nas áreas rurais, as famílias enfrentam graves dificuldades para arcar com os aumentos mensais das tarifas dos serviços públicos e adquirir alimentos essenciais para o consumo. Testemunho disso é o relato de uma mãe da zona rural do Departamento de Huiliches, em agosto de 2025: “As coisas das crianças: você tem que comprar iogurte, fraldas. A carestia é tremenda”.

O desinvestimento estatal se manifesta também na interrupção da trajetória escolar devido à falta de transporte público nas áreas rurais e no desmantelamento de programas de retenção escolar. Um exemplo disso é o programa de bolsas de estudo Progresar, que registrou uma redução de 500 mil beneficiários durante o ano de 2024, diminuindo a cobertura total de 1,8 para 1,3 milhão de jovens. No contexto mapuche de Neuquén, essa perda foi resumida por uma professora local em agosto de 2024, que afirmou que “muitas Progresar foram perdidas”. No que diz respeito à infraestrutura escolar, a falta de manutenção resultou na perda repetida de jornadas letivas devido a colapsos nos sistemas de esgoto e à falta de aquecedores em funcionamento, questão de vital importância na região da Patagônia.

A deterioração da rede de cuidados e alimentação escolar

A precarização estrutural à qual nos referimos também vem corroendo os apoios nutricionais e institucionais básicos da infância. Nas escolas rurais, os refeitórios escolares enfrentam restrições orçamentárias e escassez de suprimentos diante do aumento sustentado dos preços. Uma professora mapuche de uma instituição da província descreveu essa problemática em agosto de 2025: “chegam poucos recursos, os alimentos são caros. Nós nos viramos comendo ensopado e macarrão”.

Essa dieta, caracterizada pela escassez de verduras frescas e pela presença marginal de proteínas, diminui sensivelmente o valor nutricional da alimentação que os alunos recebem. Esses fenômenos ilustram a violência que um modelo de capitalismo financeirizado exerce sobre a classe trabalhadora, o qual, segundo Fraser, de maneira sistemática “suga valor dos lares, das famílias, das comunidades e da natureza essencialmente por meio da dívida” (2016, p. 127, tradução nossa).

A negligência do Estado forçou respostas comunitárias extremas diante de eventos críticos. Por exemplo, diante dos incêndios devastadores nas cordilheiras em março de 2025, a demora na assistência governamental obrigou a própria população mapuche, incluindo crianças a partir dos 11 anos de idade, a se auto-organizar em brigadas de emergência para a criação de faixas de proteção contra o fogo. Da mesma forma, a ausência de cobertura de saúde elementar se reflete também na necessidade das famílias de recorrer à organização de rifas comunitárias para financiar tratamentos médicos básicos, como o atendimento odontológico das crianças.

Violências, reprivatização e “destronização da infância”

As reformas regressivas e de ajuste fiscal têm sido promovidas ativamente na arena pública por autoridades nacionais, com uma amplificação acentuada nas plataformas digitais e nas redes sociais. Nesse ambiente virtual, tem-se observado um aumento da violência verbal direcionada às infâncias, um padrão de hostilidade que também se volta contra o sistema científico, as universidades, os aposentados e o setor de pessoas com deficiência. De fato, no momento da redação destas linhas, o corpo docente universitário mantém medidas de força diante do descumprimento da Lei de Financiamento Universitário.

Esse clima de violência simbólica e física se materializa em casos de grande gravidade institucional e social:

1. A agressão física contra uma criança de 10 anos em setembro de 2024, que foi atingida por gás-pimenta pelas forças policiais durante uma manifestação em defesa da mobilidade previdenciária. Sobre esse ocorrido, a menina declarou: “Sinto que os policiais se orgulhavam de atirar gás pimenta em nós; além disso, Patricia Bullrich (na época, ministra da Segurança) culpa minha mãe por ter me levado à manifestação”.

2. O assédio digital contra Ian Moche, um ativista neurodivergente de 12 anos com autismo. No contexto das reivindicações contra os cortes nas políticas para pessoas com deficiência, o menino foi alvo de ataques sistemáticos na plataforma X por parte do presidente da Nação e de seus partidários, que divulgaram informações confidenciais de sua vida privada, como sua escola e seu endereço residencial. Posteriormente, em canal aberto, o então diretor da Agência Nacional de Deficiência, Diego Spagnuolo, questionou a mãe do menino, alegando que a responsabilidade por um filho com deficiência cabia exclusivamente à família e não ao Estado.

Essas dinâmicas configuram o que, analiticamente, pode ser definido como um processo de “desentronização da infância”, pelo qual se tenta retirar as questões relacionadas aos direitos da infância da esfera do debate público e das obrigações do Estado para realocá-las como um assunto de âmbito estritamente privado e familiar. Busca-se, assim, ofuscar os modelos de desenvolvimento precedentes que consagravam às crianças um papel prioritário, alinhado com as concepções do valor incomensurável da infância (ZELIZER, 1985), construídas historicamente sob a influência das potências do Atlântico Norte.

Essa desestatização anda de mãos dadas com uma reprivatização dos cuidados, que sobrecarrega os lares — e, fundamentalmente, as mulheres — com responsabilidades e tarefas de subsistência (COOPER, 2017; EPELE, 2010). Por sua vez, ela enfraquece e fragmenta o tecido comunitário de apoio (MORANO et al., 2025), ao mesmo tempo em que dificulta a realização de projetos de pesquisa socioantropológica voltados para a infância, devido ao questionamento e ao desfinanciamento das ciências sociais.

Dinâmicas locais, “neuquinidade” e resistência mapuche

Apesar da convergência nacional dessas políticas, os efeitos locais apresentam variações significativas na província de Neuquén. Embora as comunidades mapuches da região sofram episódios de violência institucional e repressão policial no contexto de reivindicações territoriais e identitárias, a agressividade verbal contra as crianças no espaço de discussão pública não atinge a mesma magnitude. Isso está associado à vigência de noções político-culturais ligadas à “neuquinidade”, que se caracteriza por altos níveis de articulação comunitária e uma densa rede de mobilização social em defesa dos direitos humanos, dos direitos do povo mapuche e das garantias das crianças e adolescentes.

Diante do avanço do capitalismo tardio e das novas direitas, as famílias e comunidades mapuches desenvolvem, de forma persistente, estratégias situadas de resistência. Essas estratégias não se limitam à ação direta no espaço público, mas envolvem a ativação e a aplicação do mapuche kimvn (conhecimento ancestral mapuche) como um conjunto de ferramentas para mitigar as adversidades materiais e simbólicas.

Uma dimensão em que se registraram avanços significativos é a da educação. Por um lado, diferentes comunidades continuam fortalecendo suas próprias práticas educacionais na formação de suas crianças. Por outro lado, em diversas escolas de Neuquén, a educação mapuche também está se fortalecendo por meio da incorporação do ensino do mapuzugun – a língua mapuche –, da ourivesaria, do tear e de elementos centrais do conhecimento mapuche sobre seu entorno, ministrados por professores das comunidades. Apesar de enfrentarem atritos, questionamentos e desrespeito por parte de setores do corpo docente formal, as crianças e suas famílias demonstram um interesse contínuo e um processo de apropriação ativa desses conhecimentos ligados ao modo mapuche de pensar e de estar no mundo.

Andrea Szulc (Universidad de Buenos Aires – CONICET)
Editora Associada

Referências Bibliográficas

COOPER, M. Family Values. Between Neoliberalism and the New Social Conservatism. New York: Zone Books, 2017.

EPELE, M. Sujetar por la herida: Una etnografí­a sobre drogas, pobreza y salud. Buenos Aires: Paidós, 2010.

FRASER, N. “Las contradicciones del capital y los cuidados”. The new left review, n. 100, p. 111-132, 2020.

MORANO, L. et al. “Diálogos antropológicos para pensar la niñez y su cuidado en tiempos signados por las nuevas derechas”. XIII Congreso de Antropología Social, San Salvador de Jujuy, Universidad Nacional de Jujuy. 2025.

ZELIZER, V. Pricing the priceless child. The changing social value of children. New York: Basic Books, Inc. Publishers, 1985.

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