Editorial 41

Em maio de 2025, completa-se um ano das enchentes que devastaram o estado do Rio Grande do Sul, no Brasil — episódio classificado por autoridades como “a maior catástrofe climática” da história do estado. Foram mais de 184 mortes, cerca de 2,4 milhões de pessoas afetadas, cidades inteiras destruídas, lavouras e animais dizimados.[1]

 

Estudos indicam que o aquecimento global causado por atividades humanas, somado à ausência de infraestrutura adequada, tornou a tragédia duas vezes mais provável e aumentou sua intensidade entre 6% e 9%.[2]

 

A gravidade da crise climática e seus impactos não é um tema novo. Há décadas, estudos vêm alertando para suas causas, consequências e possibilidades de mitigação. No entanto, as catástrofes climáticas fazem parecer que antecipamos o “fim do mundo” — o mundo que supomos conhecer, com sua suposta normalidade. A questão é que, enquanto parte da população parece experimentar seus efeitos apenas agora, outras — como os povos originários do Brasil — já convivem há muito tempo com secas, desmatamentos, inundações, fome e a violência estrutural que tais transformações aprofundam.

 

A jornalista e defensora dos povos da floresta Eliane Brum, em Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo, lembra que, enquanto adolescentes do Norte global, inspirados por Greta Thunberg, organizavam greves climáticas denunciando o extermínio do futuro, jovens de Altamira, no Pará, já testemunhavam o autoextermínio de colegas afetados pelos impactos socioambientais da Usina Hidrelétrica de Belo Monte[3] — um marco de destruição e silenciamento na região amazônica.

 

O que representa um “futuro apocalíptico” para a juventude europeia é, para muitos jovens brasileiros, a experiência cotidiana. O que alguns anunciam como “o fim do mundo” já se apresenta, para outros, como o “pós-fim do mundo” (BRUM, 2021, p.255).

Mais do que um diagnóstico literal, a noção de “fim do mundo” é aqui entendida como uma possibilidade de leitura e inquietação. Ela aponta para um tempo em que os referenciais de futuro e continuidade são colocados em xeque, exigindo outras formas de escuta, resistência e invenção. Em Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak sugere que talvez o “fim do mundo” não seja um evento absoluto, mas uma interrupção dos modos de vida hegemônicos, “do prazer extasiante que a gente não quer perder” (KRENAK, 2019, p. 60), abrindo espaço para novas formas de existência, inspiradas na memória, no sonho e na poesia dos povos ancestrais.

 

É nesse cenário de colapsos — ecológicos, sociais, políticos e subjetivos — e também de criação de mundos, que esta edição da Revista DESIDADES apresenta a Seção Temática: O Fim do Mundo para Crianças e Jovens na Atualidade. A proposta nasceu no contexto da Jornada Comemorativa de 10 anos da revista, que teve como tema “Viver no fim do mundo? Crianças e Jovens em um mundo de esperanças e destroços”.

 

Reunindo contribuições de diferentes campos do conhecimento, os artigos desta seção exploram a ideia de “fim do mundo” a partir de múltiplas experiências: como vivência concreta de assassinatos e desaparecimentos de crianças e jovens; como ruptura simbólica, diante das desesperanças atuais; e como possibilidade de reimaginar o presente e o que está por vir, por meio de invenções criativas, coletivas e também institucionais.

 

A seção reúne cinco artigos. São eles:

– “A infância é um luxo”, de Berenice Bento
“Algo de novo: pesquisa e formação na área da infância, adolescência e juventude”, de Flávia Ferreira Pires
“Fim do Mundo Infinito”, de Rita Marisa Ribes Pereira
“Violência Armada e Desaparecimentos Forçados na Baixada Fluminense: a política de morte contra crianças, adolescentes e jovens”, de Marcelo Princeswal e Bernardo Bittencourt Suprani
“O mundo do fim para crianças, adolescentes e jovens”, de Daniel Péricles Arruda

 

Esta edição também conta com três artigos publicados na Seção Livre:
Amanda Dourado Souza Akahosi Fernandes, Maria Cristina Ventura Couto, Barbara Costa Andrada e Pedro Gabriel Godinho Delgado assinam o artigo “A expansão do diagnóstico de autismo no contexto brasileiro atual: incidência nas políticas públicas e na organização do cuidado”; Wilka Francinara Alcântara França e Judith Zuquim são as autoras de “Jovens privados de liberdade e o direito à participação”; e, por fim, o artigo “Reintegração familiar e medida de acolhimento institucional: (in)decisões judiciais e Psicologia Jurídica” é de autoria de Ana de Araújo Xavier, Laura Ferro Bento, Rúbia Gonçalves dos Anjos e Laura Cristina Eiras Coelho Soares.

 

A seção Espaço Aberto inaugura, nesta edição, a possibilidade de receber vídeos realizados em eventos científicos e apresenta o evento “AS CRIANÇAS FALAM? Mobilizações públicas acerca do recreio escolar”, que ocorreu em 5 de novembro de 2024, em parceria com a EMERJ e com apoio da FAPERJ e do CNPq. O evento discutiu a demanda política de estudantes das escolas municipais acerca da (falta de) espaço e tempo para o recreio escolar, buscando dar visibilidade a essa reivindicação. Contou com a participação de estudantes, professores, juízes, profissionais do direito e pesquisadores.

 

Na seção de Informações Bibliográficas, Rocio Paloma Aveleyra e Melina Damiana Varela escreveram a resenha “La historia de la Revista Billiken: Imaginarios escolares, culturales, generacionales y nacionales entre 1919 y 2019”, sobre o livro La historia de Billiken. Cultura infantil y ciudadanía en la Argentina, 1919-2019, de Lauren Rea.

 

E, para finalizar a edição, trazemos o levantamento de 19 obras encontradas nas áreas das ciências humanas e sociais dos países da América Latina sobre infância, adolescência e juventude, no período de dezembro de 2024 a abril de 2025.

 

Desejamos que tenham uma proveitosa leitura desta edição!

Juliana Siqueira de Lara
Editora Associada

 

Referências Bibliográficas

 

BRUM, E. Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo. 1a ed.  São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

 

KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. 1a ed.  São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

[1] https://www.bbc.com/portuguese/articles/c72p96eqkvxo

[2] https://apublica.org/2025/04/rio-grande-do-sul-um-ano-depois-das-enchentes-monitoramento-e-alertas-continuam-falhos/

[3] https://xingumais.org.br/obra/uhe-belo-monte

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